quarta-feira, 23 de março de 2011

Domingo

Já era manhã quando acordara, o peito marcado por uma queimadura nova, provavelmente pegara no sono, o cigarro caiu e eis que lhe apresento uma queimadura nova.
Sentiu nas pontas dos dedos do pé, uma panturrilha, ainda estava quente, um alívio, pelo menos não matou ninguém durante a noite que lhe rendera uma bela queimadura.
Levantou se com cuidado, como quem tenta não fazer barulho, tropeçando em algumas latas de cerveja espalhadas pelo chão, o cheiro da cevada inebriava o pequeno quarto, mas milagrosamente a pessoa não acordou.
Contornou a cama, e lá estava ela: Uma garota estranha, não estranha por algum defeito ou algo similar, ele simplesmente não sabia quem era, mas era a estranha mais linda que já havia visto.
Eis que começam alguns flashes: ele a vê em um canto, começa a conversa, ela parece não gostar da música, nem do ambiente e começa a reclamar que as amigas lhe obrigaram a ir ou qualquer coisa do tipo, a música tava alta, as pessoas se empurravam, e ele dizia o mesmo, em um discurso que ambos fingiam o entedimento.
Outro flash: Já estavam no quarto, respiração acelerada, sussurros, risadas, ambos desnudos.
E ali estava ele, diante da estranha mais estranhamente linda que estranhamente conhecera em uma noite estranha.
E então a observava dormindo tão calmamente e se permitiu pensar um pouco, e se imaginou conhecendo-a de um jeito diferente, em outra ocasião, em diferentes fases de sua vida, e imaginou um pouco mais, viu os morando juntos, filhos, a rotina entediante, a crise do casamento, reconciliação, uma velhice confortável.
Parou então, e a viu acordando, abrindo devagar um olho, depois o outro e sorrindo.
Lembrou então que aquilo tudo não era tão imporante, ou ele não se enquadrava na descrição utópica que acabara de dar sobre sua vida.
E só voltou os olhos para seu peito, olhando novamente pra marca da queimadura e ficou feliz sabendo que o cigarro queimara seu peito, mas não o lençol, o que na pior das hipóteses começaria um incêndio que talvez lhe tirasse a vida.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A carta que não tinha nome

Não sei exatamente quando irá abrir este bilhete, ou quando irei voltar. Imagino que quando acha-lo, o envelope já estará amarelado, a mesa coberta por uma fina camada de poeira, e minhas palavras tão apagadas quanto teus olhos ao encontrarem isso.
Te direi que fugi, não porque não eras de meu agrado, fugi de quem sou. E espero que tenha pensado, que você não era o motivo.
Me dói, me amarga, me corrói.
Me larga, me amarra, me dói.
Nunca lhe sussurei palavras utópicas, nunca disse "pra sempre", nem ao menos lhe tentei com palavras sobre o que é eternidade.
Deixei como presente as cinzas do velho mundo, espero que aproveite.


Ficou muito fraco, já faz um tempo que não escrevia textos com um tema assim.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Definir

As mãos continuam tremulas, quase tão tremulas quanto as de um dependente quimico em uma crise de abstinência.
O estômago continua a parecer que está vazio, parece que ele se corrói.
O nariz aspira desinspirado um pouco do ar.
O coração insiste em bater desacelerado, insiste também em não ter ritmo.
Os olhos já não possuem brilho algum, tão escuros, tão sem vida.
As sombrancelhas não se mexem, são duas pequenas estatuas de pelos
As orelhas não ligam, agora já não faz diferença ouvir ou não.
A boca ensaia um sorriso singelo, ainda que amarelo.
Os labios não se tocam.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O afago, muro e caminho

A sua janela não é tão alta.
Eu posso subir o muro.
Eu poderia te mostrar o mundo, meu mundo.
Lhe tirar pela janela, escalar o muro, mostrar o mundo.
Tirar o mundo, escalar o mundo.
Mostraria a melhor música de 1963.
Diria seu nome como ninguém nunca ousou dizer.
Buscaria toda a felicidade do mundo, entregaria em suas mãos.
Não me importo que fuja, pediria só que me ajudasse a recupera la.
Pediria pra ouvir seu coração, esperando que talvez me falasse algo que você não consiga dizer.

Dia desses pego uma marreta, quebro o muro, quebro janela, te deixo me seguir.
Dia desses te dou meu coração
Ou não.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Três ou quatro.

Hoje eu perdi 1/4 de mim.
Não arriscaria dizer que era minha 1/2.
Hoje eu me perdi, Rua 16, algo assim.
Três horas pra tudo terminar.
Cafeína, papéis, mentiras bonitas e ainda assim, perdi 1/4 de mim.
Há quem consiga se regenerar sem ter cicatrizes e se machucar sem sangrar.
E há também quem se perde por completo, hoje perdi 1/4 de mim.
Poderia ter perdido você por completo.
Mas há quem fique feliz, em função de só ter perdido 1/4 de mim..

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Percepção Visual

Eram poucas coisas que carregava.
Metade da bagagem era saudade:
Alguns rabiscos.
Duas passagens de ônibus.
Cansaço.
Duas ideias e meia, algumas meias.
Três palavras ainda não ditas.
Quatro razões.
Nenhum objetivo.
Um pouco de motivação em algum lugar da mochila.
Um restinho de coragem, ainda que amassada.
Uma caixa de apego.
Meia garrafa de afago.
E um pequeno papel que continha a seguinte frase:

Quero tirar toda a cor do céu
Quero desenhar no mar.


Eu meio que sumi do blog, preguiça de escrever, falta de ideias, tentei fazer algo curto, e sei lá, de uns tempos pra cá as coisas andam meio cinzas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gritos


Não sei.
Mas tem alguma coisa nos gritos desesperados que te deixa preso.
Não sei,
Você esta ai vendo a pessoa que você ama gritando como se alguém a tivesse marcado com ferro quente;
Chorando desesperada por perder um ente querido;
Simplesmente desabafando, mas;
Tem algo nos seus gritos.
E eu me sinto obrigada a fazer alguma coisa.
Tenho que
Abraçar te acalmar;
Ou simplesmente seguir escutando.
 Tem algo que te comove, é a explosão das emoções, é uma espécie de humilhação da parte sofredora. É sim.
É, porque alguém só grita desse jeito quando esta totalmente desesperada, sem chão, sem esperança. Quer ajuda, precisa de ajuda. Você precisa de mim.
Te ver implorando misericórdia. Isso de alguma forma me satisfaz.
Mórbido, masoquista?
Definitivamente.
Parada te olhando no chão, sem saber se te levanto ou te vejo cair mais um pouco.
O amor e o ódio de mãos dadas n’uma ciranda louca;
Dentro de mim.